Um dos aspectos envolvidos na "cultura do crack" é a possibilidade de acumulação, por parte do usuário, de uma dupla função, a saber: o consumo e a venda da droga.
Para este grupo de indivíduos o comércio da "pedra" se opera de forma isolada e fragmentada e procura atender à necessidade de manutenção do uso continuado, configurando-se uma modalidade de venda para consumo próprio.
Neste sentido comporta uma diferença em relação à complexa trama organizada do tráfico de drogas, de atribuições e deveres bem delimitados e que objetiva a consolidação e expansão de um negócio robusto e rentável.
Quanto à existência da atividade de venda para consumo próprio (intitulada de "microtráfico"), torna-se relevante pensarmos o encaminhamento que se pode dar a esta questão. Enquadrá-la na categoria tráfico de drogas e fazer incidir sobre ela todas as suas implicações legais ou entendê-la como um fenômeno que merece melhor caracterização e critérios de conduta compatíveis com as singuaridades do mesmo?
Este é um blog criado para a discussão coletiva sobre uma importante questão da atualidade que são as relações de consumo de crack e os saberes que vem sendo construídos sobre o tema
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
Pequenas Notas: 7. recomendadas
Muito interessante o trabalho de Mestrado de Douglas Casarotto de Oliveira
"Uma genealogia do Jovem Ususário de Crack: Mídia, Justiça, Saúde, Educação"
Universidade Federal de Santa Maria/ RS.
http://www.ufsm.br/
"Uma genealogia do Jovem Ususário de Crack: Mídia, Justiça, Saúde, Educação"
Universidade Federal de Santa Maria/ RS.
http://www.ufsm.br/
domingo, 8 de agosto de 2010
Agentes sociais e cidadania
Uma pesquisa brasileira sobre as perspectivas e experiências de familiares e pessoas próximas à usuários de drogas ilícitas revelou pontos eloquentes e preocupantes.
Quando indagados sobre os "direitos das pessoas que têm problemas com drogas" grande parte deles aludiu à falta de respeito para com o usuário.
Dentre os que, no entender dos pesquisados, apresentam condutas desrespeitosas estão:
-polícia (78%)
-governo (62%)
-justiça (55%)
-sistema de saúde, em maior parte, unidades hospitalares de emergência (43%)
Houve ainda grande descontentamento com relação à oferta de serviços de saúde especializados.
Fonte: Silva J, Brands B, Adlaf E, Giesbrecht N, Simich L, Wright MGM. Familiares e pessoas conhecidas de usuários de drogas ilícitas: recorte de opiniões sobre leis e políticas públicas de uma comunidade da Zona Oeste do Rio de Janeiro, Brasil. Rev Latino-am Enfermagem 2009 novembro-dezembro; 17(Esp.):803-9.
Quando indagados sobre os "direitos das pessoas que têm problemas com drogas" grande parte deles aludiu à falta de respeito para com o usuário.
Dentre os que, no entender dos pesquisados, apresentam condutas desrespeitosas estão:
-polícia (78%)
-governo (62%)
-justiça (55%)
-sistema de saúde, em maior parte, unidades hospitalares de emergência (43%)
Houve ainda grande descontentamento com relação à oferta de serviços de saúde especializados.
Fonte: Silva J, Brands B, Adlaf E, Giesbrecht N, Simich L, Wright MGM. Familiares e pessoas conhecidas de usuários de drogas ilícitas: recorte de opiniões sobre leis e políticas públicas de uma comunidade da Zona Oeste do Rio de Janeiro, Brasil. Rev Latino-am Enfermagem 2009 novembro-dezembro; 17(Esp.):803-9.
sexta-feira, 6 de agosto de 2010
Pequenas notas: 6. cultura do crack: associação com o álcool
Estima-se que, dentre indivíduos que buscam tratamento para uso de cocaína (em geral) existe grande contingente de dependentes ou abusadores de álcool.
As combinações entre cocaína e álcool e crack e álcool podem diferir bastante: no primeiro caso o uso do álcool, em geral, tende a reforçar os efeitos positivos da cocaína, sendo ambas as substâncias administradas em maior quantidade.
Já no caso do crack, o uso de álcool é realizado posteriormente buscando-se “molhar” a secura da boca, “rebater” a intensidade do crack, e/ou amenizar efeitos indesejáveis. Além disso o emprego do álcool tende a diminuir, neste estágio final, as dosagens de crack utilizadas.
Fonte: Gossop M, Manning V, Ridge G. Concurrent use and order of use of cocaine and alcohol: behavioural differences between users of crack cocaine and cocaine powder. Addiction 2006;101:1292-8.
As combinações entre cocaína e álcool e crack e álcool podem diferir bastante: no primeiro caso o uso do álcool, em geral, tende a reforçar os efeitos positivos da cocaína, sendo ambas as substâncias administradas em maior quantidade.
Já no caso do crack, o uso de álcool é realizado posteriormente buscando-se “molhar” a secura da boca, “rebater” a intensidade do crack, e/ou amenizar efeitos indesejáveis. Além disso o emprego do álcool tende a diminuir, neste estágio final, as dosagens de crack utilizadas.
Fonte: Gossop M, Manning V, Ridge G. Concurrent use and order of use of cocaine and alcohol: behavioural differences between users of crack cocaine and cocaine powder. Addiction 2006;101:1292-8.
sábado, 17 de julho de 2010
Pequenas notas: 5. crack e atenção integral à saúde
Alguns estudos têm trazido à discussão perspectivas interessantes e mais abrangentes no que tange às relações de dependência de crack.
Por exemplo, apresentando achados relativos à estreita conexão entre uso desta substância e fenômenos como pobreza, racismo, falta de respaldo legal e/ou péssimas condições de trabalho (dentre outros).
Também são alvo de preocupação os inúmeros impecilhos e barreiras de acesso à diversos serviços de saúde e assistência social, e a precária acolhida que os usuários recebem, sendo não raro hostilizados.
Neste sentido, para além das características farmacológicas do crack, é importante atentarmos para fatores econômicos, sociais e estruturais que contribuem fortemente para o agravamento da condiçao de dependência da droga.
Por exemplo, apresentando achados relativos à estreita conexão entre uso desta substância e fenômenos como pobreza, racismo, falta de respaldo legal e/ou péssimas condições de trabalho (dentre outros).
Também são alvo de preocupação os inúmeros impecilhos e barreiras de acesso à diversos serviços de saúde e assistência social, e a precária acolhida que os usuários recebem, sendo não raro hostilizados.
Neste sentido, para além das características farmacológicas do crack, é importante atentarmos para fatores econômicos, sociais e estruturais que contribuem fortemente para o agravamento da condiçao de dependência da droga.
segunda-feira, 12 de julho de 2010
Fique ligado!
Existe um discurso vigoroso, constituído historicamente, que se funda e se desenvolve a partir de dois grandes alicerces de pensamento e conduta: um, de tradição norte-americana que desde o início do séc XIX voltou-se ao intolerante combate (por intermédio de táticas militarizadas) do comércio e utilização de uma série de substâncias que redundassem num uso abusivo; e outro, que adveio a partir da fundação das Nações Unidas (1945) objetivando reforçar a formulação de políticas que se destinassem ao fortalecimento do controle internacional às drogas, num esforço de erradicação das mesmas.
A priorização do foco na redução da oferta e da demanda a partir de mecanismos de combate, repressão e criminalização do cultivo, produção, distribuição, comércio, posse e consumo de drogas ilícitas; é estimulada pelo ideal de “uma sociedade sem drogas” (discurso dominante); uma vez que as mesmas, segundo esta máxima, representariam uma séria ameaça aos princípios da civilidade.
É importante problematizar a magnitude com que estas idéias (extensão da repressão e intolerância ao narcotráfico para o usuário e sua, muitas vezes, impossibilidade de abster-se da droga como que "por decreto") alimentam o imaginário social brasileiro e influenciam a forma como, por exemplo, o uso abusivo do crack e o próprio usuário da droga são vistos e abordados. Além disso, torna-se necessário indagar em que medida estas mesmas concepções também podem servir de base para que se justifique a adoção de abordagens “tecnicistas” voltadas para a re-educação moral e social do usuário (num endereçamento adaptacionista) ao invés de se oferecerem espaços de fala e escuta em que se priorize a construção de caminhos e escolhas singulares (autorais) que venham a favorecer a modificação da relação de exclusividade com a droga.
A priorização do foco na redução da oferta e da demanda a partir de mecanismos de combate, repressão e criminalização do cultivo, produção, distribuição, comércio, posse e consumo de drogas ilícitas; é estimulada pelo ideal de “uma sociedade sem drogas” (discurso dominante); uma vez que as mesmas, segundo esta máxima, representariam uma séria ameaça aos princípios da civilidade.
É importante problematizar a magnitude com que estas idéias (extensão da repressão e intolerância ao narcotráfico para o usuário e sua, muitas vezes, impossibilidade de abster-se da droga como que "por decreto") alimentam o imaginário social brasileiro e influenciam a forma como, por exemplo, o uso abusivo do crack e o próprio usuário da droga são vistos e abordados. Além disso, torna-se necessário indagar em que medida estas mesmas concepções também podem servir de base para que se justifique a adoção de abordagens “tecnicistas” voltadas para a re-educação moral e social do usuário (num endereçamento adaptacionista) ao invés de se oferecerem espaços de fala e escuta em que se priorize a construção de caminhos e escolhas singulares (autorais) que venham a favorecer a modificação da relação de exclusividade com a droga.
terça-feira, 6 de julho de 2010
Pequenas notas: 4. usuários de crack no Brasil
O Ministério da Saúde notifica a existência de 600 mil usuários de crack, no país.
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