sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Carta Aberta.


Carta Aberta escrita pela equipe do CRATOD - SP (Centro de Referência de Álcool e Outras Drogas) sobre a gravidade do que está acontecendo nesta gestão Alckmin.

Carta Aberta

Ao longo da história da humanidade é comum que povos em nome do progresso e desenvolvimento dizimem civilizações e culturas.
Guardadas as devidas proporções, estamos vivendo uma situação parecida no Cratod. Em nome da “internação compulsória” o Cratod foi ocupado dia 21 de janeiro pela secretaria da saúde e teve sua diretora destituída . Essa ocupação ocorreu como se o prédio estivesse vazio , como se não houvesse nenhum profissional já trabalhando, e não existisse um trabalho de anos, como se já não houvesse uma estrutura montada e em bom funcionamento. Seus profissionais foram completamente desconsiderados, seu conhecimento e trabalho ignorados.

A nova equipe entra e sai das salas sem se identificar , sem se apresentar como se estivesse na sua casa e não devesse nenhuma explicação. O trabalho existente está sendo desmanchado.
O Centro de Referência com todos os ambulatórios, atendimentos, oficinas de regime intensivo e de semi intensivo, parcerias com Universidades e capacitações profissionais oferecidas para o Brasil todo foram desconsideradas, como se não importasse realmente. As oficinas existentes formam “ suspensas” para podermos dar conta da demanda de internação apenas, sem considerar o tratamento das pessoas dependentes. Nesta hora servimos como mão de obra barata para “tapar buraco”, o qual aliás, sem a avaliação inicial é enorme. Voltou a se fumar nas dependências do prédio, antes pioneiro na lei de proteção ao não fumante, no ambiente livre de tabaco e atendimento ao tabagismo.

Em nenhum momento foi considerada a parceria, ou alguém nos perguntou o que achávamos , o que queríamos, o que pensávamos. A equipe foi considerada, sem julgamento, de incompetente. Infelizmente o funcionário público carrega esse rótulo de incompetente, encostado e vagabundo, mesmo se trabalhos brilhantes são realizados apesar da máquina pública. No serviço público tudo é feito para não funcionar , apesar disso muita gente se esforça e a coisa funciona!

O tratamento ambulatorial visando a reinserção social está sendo gravemente afetado. O prédio reformado e bonito (mérito do Cratod) voltou a ser um centro de internação como há 30 anos atrás, com superlotação. Que retrocesso!

Não vamos nem entrar no mérito da questão se a internação compulsiva ... ops “compulsória” é necessária neste momento. Estamos questionando como as coisas estão sendo feitas. Uma equipe que não consegue nem respeitar seus colegas de profissão , conseguirá respeitar a população? Difícil...

O trabalho com dependência química começou aqui há 23 anos quando foi criada uma equipe para trabalhar com os pacientes alcoolistas . Uma médica , muito sensata, formou uma equipe para atender ambulatorialmente os pacientes alcoolistas uma vez que o numero de internações dessa população estava crescendo. Iniciou-se o trabalho que aos poucos foi construído baseado no prática e no estudo. A equipe foi crescendo e se aperfeiçoando, o conhecimento se aprimorando . Essa pequena semente vingou, brotou , se transformou numa grande árvore frondosa que dá sombra e frutos . Infelizmente não querem ver isso.

Como centro de referência, o CRATOD atua no tratamento, na formação de recursos humanos, na prevenção.

Criado em 2002, por decreto do então e atual governador Geraldo Alckimin , tem se constituído como um pólo formador de recursos humanos especializados para todo o Estado de São Paulo, desenvolvendo e testando tecnologias de atendimento aos dependentes de substâncias psicoativas.

Em relação ao tratamento, semanalmente, passavam( até o início de janeiro de 2013) aproximadamente 450 pacientes no CRATOD nos regimes intensivo, semi-intensivo e não intensivo. Alguns pacientes permaneciam meio período (manhã ou tarde),outros passavam o dia todo e alguns até pernoitavam quando em situação de risco.Temos 10 leitos de observação e pernoite.Atualmente esses leitos são ocupados apenas com pessoas “esperando vagas de internação”. O índice de internação no último ano foi de 4 % dos pacientes e todas foram internações voluntárias. A população atendida é 80% de moradores de rua, e o tratamento viso a recuperação, abstinência e reinserção social.

Ao longo desses anos, o CRATOD teve grande visibilidade na mídia levando o nome do governo e da Secretaria da Saúde a ponto de ser premiado com troféu por ser uma das instituições do governo que mais visibilidade positiva.

O CRATOD foi extremamente importante para a discussão e posterior lei que regula o fumo nos ambientes fechados de uso coletivo. Capacitamos a rede estadual para o atendimento aos tabagistas, além de sermos a Coordenação Estadual para o Controle do tabagismo junto ao INCA.

No papel de centro de referência, reconhecido até fora do país pelas inúmeras visitas de profissionais da área da dependência, também no estado, fomos , por vezes solicitados como supervisores e orientadores de serviços municipais.

No papel de prevenção realizamos, semanalmente, ações de prevenção nas praças públicas, estações de trens e metrôs e outros espaços de grande circulação de pessoas levando informação, distribuição de folhetos, preservativos e aplicando instrumentos validados para o rastreamento de uso de substâncias psicoativas (ASSIST, Fagerstrom). Após a detecção do uso utilizamos a técnica de Intervenção breve e fazemos os devidos encaminhamentos para aqueles que não chegaram,ainda, aos serviços de saúde e que apresenta uso abusivo ou dependência.

Chegou a ora da derrubada. Sem escrúpulos, sem respeito, sem ética, sem consideração . Em nome de saber o que é melhor . Saiam de perto. Madeira...

Equipe do Centro de Referência de Álcool Tabaco e Outras Drogas. CRATOD.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Fique ligado!


Lancei recentemente meu livro - "Crack: reflexões para abordar e enfrentar o problema" - pela editora Civilização Brasileira.
Aqui vão dois trechinhos:

"O grau de envolvimento e de agravamento da relação com a substância varia sensivelmente e só pode ser avaliado de indivíduo para indivíduo. Pode-se dizer que o crack - por si só - não determina nada, mesmo sendo uma substância bastante potente".

"O que é marcado como dejeto, lixo - além de imprestável -, perde qualquer marca distintiva que lhe confira alguma singularidade. Para quem conhece um pouco da realidade das cracolândias e não raro observa certas medidas traçadas para dar conta da questão pode perceber que tais medidas tendem a seguir a mesma lógica da indiscriminação, em que todos (lixos) parecem padecer do mesmo estatuto de relação com a droga, supostamente possuem as mesmas necessidades e aspiram aos mesmos projetos".

Crack: reflexões para abordar e enfrentar o problema.

Uma contundente análise sobre o consumo do crack no Brasil           


Título: Crack - Reflexões para a abordagem e enfrentamento do problema
Autor: Andréa Costa Dias
Páginas: 108
A doutora em Saúde Mental pela UNIFESP Andréa Costa Dias levanta incisivas e lúcidas questões sobre o uso de drogas no Brasil. Em Crack - reflexões para a abordagem e enfrentamento do problema, a substância aparece como protagonista deste drama social em que todos saem perdendo. No livro, a autora faz ponderações sobre as diversas faces do tema e mostra que pensar o uso de drogas como um reflexo da sociedade é tão importante quanto pensar sobre o uso destas substâncias no âmbito particular.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Opinião: internações involuntárias


"Se a família pode fazer isso, e há controvérsias, o poder público não pode. Fora da crise, prevalece a vontade do indivíduo" (Januario Montone, Secretário Municipal de Saúde).
De fato ainda há muitas limitações. Agora, concordo com o posicionamento e considero bem estranho o "dado" de que 70% (de uma amostra de 151) nunca receberam oferta de tratamento. Na cracolândia? Onde diariamente transitam profissionais e voluntários das mais variadas instâncias? Parece coisa de quem não conhece o território e não sabe o que acontece no seu dia a dia.


http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/1145552-tendenciasdebates-combate-ao-crack-missao-de-quem-nao-desiste.shtml

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Pequenas Notas: 11. retratos

Como diria o Agamben este é o retrato da política moderna já que ela implica o desaparecimento da distinção entre polícia e política. Neste sentido, as ditas políticas de assistência e saúde se confundem com o combate e a luta contra o inimigo. Sãos os homines sacri contemporâneos, destituídos de qualquer valor político, vidas matáveis.
"A vida que, com as declarações dos direitos humanos tinha-se tornado o fundamento da soberania, torna-se agora o sujeito-objeto da política estatal (que se apresenta, portanto, sempre mais como "polícia"); mas somente um Estado fundado sobre a própria vida da nação podia identificar como sua vocação dominante a formação e tutela do "corpo popular" (Giorgio Agamben).

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Fique Ligado!

Essa discussão é bastante necessária: a internação compulsória como política de intervenção para usuários de crack em situação de rua.

http://migre.me/9RGpQ

domingo, 3 de junho de 2012

"Sociedade Fissurada" saiu no Estado de Minas.

Novos olhares sobre a sociedade Especialistas vêm a Belo Horizonte para refletir sobre o mundo contemporâneo. Ponto de partida é desmistificar discurso sobre as drogas

Luciane Evans
Publicação: 03/06/2012 04:00
A psicóloga Andréa Costa Dias 
e a filósofa Márcia Tiburi destacam o consumismo exacerbado como característica forte dos tempos atuais  (Fotos: Tomas Arthuzzi/Divulgação)
A psicóloga Andréa Costa Dias e a filósofa Márcia Tiburi destacam o consumismo exacerbado como característica forte dos tempos atuais

Maurício é viciado em crack. A pedra traz certeza para suas angústias da mesma forma que os antidepressivos deixam Joana certa de que a vida faz mais sentido e seu humor não altera a cada pílula ingerida. A mesma confiança tem Joice, para quem o melhor mesmo é emagrecer a qualquer preço. Semelhante satisfação tem Raul ao entrar no Facebook e curtir amizades virtuais sem se envolver. Esses personagens são fictícios, mas poderiam ser reais, e doa a quem doer, há muitos deles entre nós.

Com a ideia de que estamos todos no mesmo barco ao buscarmos respostas para nossas angústias e nos refugiarmos nas primeiras certezas que aparecem, sejam elas as drogas ilícitas, legais, o amor romântico, os discursos científicos e até a corrida pelo corpo ideal, a psicóloga clínica Andréa Costa Dias e a filósofa Márcia Tiburi desembarcam em Belo Horizonte, em 13 e 14 de junho, para discutir um novo conceito criado por elas como reflexão (ou um tapa na cara) para essa nossa realidade: o de uma “sociedade fissurada”.

A expressão, que logo nos remete ao linguajar de um viciado em drogas, é o título do livro que ambas estão escrevendo. Com a obra ainda aberta e com promessa de ser lançada no ano que vem, as escritoras escolheram BH para abrir a discussão e, com isso, encontrar novos questionamentos e, quem sabe até, respostas por meio do debate na cidade.

A palavra “fissura” vem mesmo da gíria de um dependente químico, mas elas querem quebrar o muro que há entre os usuários e a sociedade. Por isso, ao colocar todos no mesmo patamar, a ideia é discutir o vício não só pelo álcool, cigarro, drogas ilícitas, mas trazer à tona a dependência da sociedade das sensações que também são provenientes do dinheiro, da busca pela beleza, dos medicamentos e tantas outras promessas de felicidade. “Essa sociedade já está fissurada na busca de construir sentidos onde não há”, explica Márcia, apontando o capitalismo como fonte para essa fissura.

O ponto de partida desse diálogo é desmistificar o discurso sobre as drogas, que, segundo explica Andréa, sempre estiveram presentes na história da humanidade. “Pensar numa sociedade livre disso só serve para endossar um ideal de associação entre o que é proibido e a segurança. Decretar guerra às drogas é o mesmo que decretar guerras às pessoas. A sociedade passou a se dividir em grupos: drogados e não drogados, pensando que, no universo dos usuários, ela não faz parte deles. E não é bem assim”, defende, acrescentando que ao pensar que todos nós fazemos parte desse mundo permite que tenhamos um olhar sobre nós mesmos. “Acaba-se com a ideia de que o mal está no outro e, por isso, temos que combater o outro”, destaca Andréa. Ela deixa claro que não há uma apologia das drogas, mas a vontade de debater sobre o discurso totalitário que se formou sobre essas questões. “Os discursos que estão aí não dão brecha para novos olhares e estão intoxicados pela moral”, ressalta a psicóloga.

Andréa compara a lógica da indústria farmacêutica à do tráfico. “Ambas têm a mesma teoria, ao oferecer curar a dor de viver, a angústia que há em nós e nossos questionamentos. Estão imbuídas do mesmo pensamento. Por isso, queremos trazer essa discussão de que não existe divisão entre o mundo do drogado e o do resto”, diz. A ideia não é dizer que todo mundo tem um vício, mas, sim, falar sobre uma necessidade mais complexa e contundente. “Fissura tem a ver com urgência e com a certeza de que as drogas acenam como garantia de ser tudo aquilo de que necessitamos”, afirma.

Ao quebrar esse muro invisível que a sociedade cria entre os drogados, considerados marginais, e aqueles que não dependem disso para ter sua satisfação, as autoras dizem que todos os seres humanos estão em busca de algo para curar suas angústias. “Vivemos na época do culto às sensações. E essa busca está em todas as classes sociais. As menos favorecidas vão consumir um determinado produto para encontrar essas respostas. Assim como a classe alta”, diz Márcia, apontando o consumo desenfreado como uma das drogas dessa sociedade fissurada. “Será que precisamos comprar tantas coisas? A TV, a publicidade e o cinema lançam sobre nós estímulos estéticos. Existe uma analogia entre os estímulos externos e os que saem dos objetos. Até a música é análoga aos estímulos que recebemos das drogas, sempre é o nosso corpo que será atingido.”
Vivemos na época do culto às sensações. E essa busca está em todas as classes sociais - Márcia Tiburi,  filósofa
Vivemos na época do culto às sensações. E essa busca está em todas as classes sociais - Márcia Tiburi, filósofa

A LONGO PRAZO Ao comparar uma pessoa que fuma maconha e outra que não consegue tirar os olhos da TV, por exemplo, Márcia reconhece que os efeitos são diferentes. “A erva pode torná-la mais lenta, distraída, mas é algo imediato. Já a TV vai fazer isso a longo prazo”, compara. O mesmo ocorre, segundo ela, com os viciados nas marcas. “A pessoa fica em paz no instante em que acredita na plenitude dos objetos em questão. Usam objetos, futebol, Deus, comida, o Facebook, o emagrecimento e outros para tapear a fissura mais fundamental, a da busca de sentido, por não saberem o que estão fazendo neste mundo. A sociedade não está feliz, mas encontrou muitos objetos para colocar na infelicidade incompreendida. Eles passaram a ser a resposta para o vazio e para a solidão. Aceita-se qualquer certeza, como forma de se tapear mais depressa, fingindo, assim, não se ter mais ferida.”

A cura para essa fissura, segundo apontam as autoras, está na reflexão. É por meio do diálogo que as especialistas acreditam que a sociedade poderá ter a resposta para a sua busca de sentidos. “A sociedade está rachada, apartada da possibilidade de pensar e refletir criticamente sobre o cotidiano e fazer suas próprias escolhas”, apimenta Andréa.

INSPIRAÇÃO

Uma das inspirações para o livro de Andréa Costa Dias e Márcia Tiburi é o filme Réquiem para um sonho, do diretor Darren Aronofsky. O longa conta a história de Harry Goldfarb (Jared Leto) e Marion Silver (Jennifer Connelly), um casal apaixonado, que sonha montar um pequeno negócio e viver feliz. Mas os dois são viciados em heroína. Já Sara, mãe de Harry, é viciada em assistir a programas de TV. Até que um dia recebe um convite para participar de seu show favorito, o Tappy Tibbons Show. Para usar seu vestido predileto, ela começa a tomar pílulas de emagrecimento e se torna viciada no medicamento.

>> SERVIÇO

O debate está dividido em quatro temas: “Sociedade fissurada – ética, estética e política da sensação”, “As drogas e o discurso da ciência”, “A fissura nossa de
cada dia” e “O que nos aproxima dos fissurados