quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Pequenas Notas: 7. recomendadas

Muito interessante o trabalho de Mestrado de Douglas Casarotto de Oliveira

"Uma genealogia do Jovem Ususário de Crack: Mídia, Justiça, Saúde, Educação"

 Universidade Federal de Santa Maria/ RS.

http://www.ufsm.br/

domingo, 8 de agosto de 2010

Agentes sociais e cidadania

Uma pesquisa brasileira sobre as perspectivas e experiências de familiares e pessoas próximas à usuários de drogas ilícitas revelou pontos eloquentes e preocupantes.

Quando indagados sobre os "direitos das pessoas que têm problemas com drogas" grande parte deles aludiu à falta de respeito para com o usuário.

Dentre os que, no entender dos pesquisados, apresentam condutas desrespeitosas estão:

-polícia (78%)
-governo (62%)
-justiça (55%)
-sistema de saúde, em maior parte, unidades hospitalares de emergência (43%)

Houve ainda grande descontentamento com relação à oferta de serviços de saúde especializados.

Fonte: Silva J, Brands B, Adlaf E, Giesbrecht N, Simich L, Wright MGM. Familiares e pessoas conhecidas de usuários de drogas ilícitas: recorte de opiniões sobre leis e políticas públicas de uma comunidade da Zona Oeste do Rio de Janeiro, Brasil. Rev Latino-am Enfermagem 2009 novembro-dezembro; 17(Esp.):803-9. 

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Pequenas notas: 6. cultura do crack: associação com o álcool

Estima-se que, dentre indivíduos que buscam tratamento para uso de cocaína (em geral) existe grande contingente de dependentes ou abusadores de álcool.

As combinações entre cocaína e álcool e crack e álcool podem diferir bastante: no primeiro caso o uso do álcool, em geral, tende a reforçar os efeitos positivos da cocaína, sendo ambas as substâncias administradas em maior quantidade.

Já no caso do crack, o uso de álcool é realizado posteriormente buscando-se “molhar” a secura da boca, “rebater” a intensidade do crack, e/ou amenizar efeitos indesejáveis. Além disso o emprego do álcool tende a diminuir, neste estágio final, as dosagens de crack utilizadas.

Fonte: Gossop M, Manning V, Ridge G. Concurrent use and order of use of cocaine and alcohol: behavioural differences between users of crack cocaine and cocaine powder. Addiction 2006;101:1292-8.

sábado, 17 de julho de 2010

Pequenas notas: 5. crack e atenção integral à saúde

Alguns estudos têm trazido à discussão perspectivas interessantes e mais abrangentes no que tange às relações de dependência de crack.

Por exemplo, apresentando achados relativos à estreita conexão entre uso desta substância e fenômenos como pobreza, racismo, falta de respaldo legal e/ou péssimas condições de trabalho (dentre outros).

Também são alvo de preocupação os inúmeros impecilhos e barreiras de acesso à diversos serviços de saúde e assistência social, e a precária acolhida que os usuários recebem, sendo não raro hostilizados.

Neste sentido, para além das características farmacológicas do crack, é importante atentarmos para fatores econômicos, sociais e estruturais que contribuem fortemente para o agravamento da condiçao de dependência da droga.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Fique ligado!

Existe um discurso vigoroso, constituído historicamente, que se funda e se desenvolve a partir de dois grandes alicerces de pensamento e conduta: um, de tradição norte-americana que desde o início do séc XIX voltou-se ao intolerante combate (por intermédio de táticas militarizadas) do comércio e utilização de uma série de substâncias que redundassem num uso abusivo; e outro, que adveio a partir da fundação das Nações Unidas (1945) objetivando reforçar a formulação de políticas que se destinassem ao fortalecimento do controle internacional às drogas, num esforço de erradicação das mesmas.

A priorização do foco na redução da oferta e da demanda a partir de mecanismos de combate, repressão e criminalização do cultivo, produção, distribuição, comércio, posse e consumo de drogas ilícitas; é estimulada pelo ideal de “uma sociedade sem drogas” (discurso dominante); uma vez que as mesmas, segundo esta máxima, representariam uma séria ameaça aos princípios da civilidade.

É importante problematizar a magnitude com que estas idéias (extensão da repressão e intolerância ao narcotráfico para o usuário e sua, muitas vezes, impossibilidade de abster-se da droga como que "por decreto") alimentam o imaginário social brasileiro e influenciam a forma como, por exemplo, o uso abusivo do crack e o próprio usuário da droga são vistos e abordados. Além disso, torna-se necessário indagar em que medida estas mesmas concepções também podem servir de base para que se justifique a adoção de abordagens “tecnicistas” voltadas para a re-educação moral e social do usuário (num endereçamento adaptacionista) ao invés de se oferecerem espaços de fala e escuta em que se priorize a construção de caminhos e escolhas singulares (autorais) que venham a favorecer a modificação da relação de exclusividade com a droga.

domingo, 4 de julho de 2010

Fique ligado!

Não é incomum que no debate sobre o consumo intensivo de crack se faça uma associação muito direta entre o uso da droga e ocorrência de episódios violentos.

Este tipo de articulação acaba reproduzindo um modo de pensar que estigmatiza o dependente de crack e atribui a ele ou a ele mais a droga a propriedade de serem violentos. Como se indivíduo e crack "por si só" já fossem elementos suficientes para a propagação da criminalidade. Esta é uma premissa equivocada.

Existe sim um CONTEXTO do mercado da droga , por exemplo, que está em constante disputa (violenta) pela supremacia do negócio. Um mercado que tende a ser intransigente em sua organização e não perdoa, dentre outros, práticas de endividamento. Não há acordo para dívidas não pagas e, em muitos casos, acerta-se com a própria vida do usuário. Há também os confrontos entre dependentes e a polícia que podem resultar em violência (uma vez que muitas das ações policiais ainda são orientadas dentro de uma perspectiva estritamente repressiva).

Não há indícios de que o usuário de crack apresente um temperamento preexistente de cunho violento e que, com a droga, esta predisposição se efetue. Também não há o que justitifque pensar no crack "em si" (por seus efeitos farmacológicos) como produtor de atos criminosos.

O que se pode dizer, mais uma vez, é que o CONTEXTO de consumo tende a requerer episódios repetitivos de uso do crack. Quando os recursos financeiros se esgotam há uma situação favorável (em vista da urgência pela droga) para o engajamento em ações fora do âmbito legal que possam financiar a continuidade da utilização de crack (e não o acúmulo de bens!).

Fique ligado, pois é necessária uma mudança de olhar deixando de se incorrer em julgamentos morais que estreitam a reflexão.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Pequenas notas: 3. Perfil brasileiro

Segundo pesquisas desenvolvidas no país, o perfil do usuário brasileiro de crack é predominantemente do sexo masculino, adulto jovem (entre 20 e 30 anos), solteiro, inserido no mercado informal de trabalho ou em situação de desemprego.

Verifica-se baixa escolaridade (ensino fundamental ou menos) e modesta condição sócio-econômica.

Atualmente especula-se a respeito da presença de padrões intensificados de consumo também entre indivíduos de classes sociais mais abastadas, baseado nas demandas dos que tem se apresentado para tratamento.

Entretanto são poucos os indicadores oficiais e portanto os elementos que dispomos para dimensionar a magnitude da questão envolvendo o crack, em termos de alcance e especificidades; incorrendo num certo engessamento do perfil (sem que se possa ampliá-lo).

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Pequenas notas: 2. Os efeitos do crack

O crack produz intensa sensação de prazer, euforia e poder, além de reduzir a necessidade de sono e alimentação.

Não é raro que o usuário sinta-se, sob o efeito da substância, ansioso, agitado, com medo, tenha alucinações e ideação paranóica (sensação de estar sob acirrada vigilância ou prestes a ser capturado).

O término do efeito é acompanhado de grande fissura (vontade de usar mais a droga).

Vale destacar que o consumo de crack pode ocasionar dependência mais rapidamente do que outras substâncias mas isso não equivale a dizer que todos aqueles que fazem uso dele são necessariamente dependentes.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Pequenas notas: 1. A chegada do crack

No Brasil, os primeiros relatos de apreensão e consumo do crack surgiram em território paulistano quando do início da década de 90.

Neste período, os serviços de atendimento a usuários de outras drogas passaram a receber demandas por tratamento por parte de pessoas que já estavam bastante envolvidas com o crack.

O crack não é uma nova substância mas uma outra forma de utilização da própria cocaína. Ou seja, crack é a cocaína transformada numa forma sólida ("pedra") e volátil que pode então ser fumada.

Produz-se um efeito bastante potente, porém de curta duração. O que tende a promover repetidas utilizações aumentando as chances de se desenvolver uma relação de consumo intensificada com a droga.

A pedra da vez

Os tempos atuais têm se encarregado de fornecer as condições para a construção do enredo em que um personagem rouba a cena “consagrando-se” publicamente. Neste espetáculo toma parte um objeto de modesta dimensão, consistência sólida e coloração pouco harmoniosa. Popularmente convencionou-se chamá-lo de “pedra” ou, consoante a uma versão mais americanizada, crack.

Ofertado e distribuído no mercado não legalizado das cifras e trocas, caiu no gosto de seu público e no imaginário social (ferozmente alimentado pelos mais variados discursos e palavras de ordem).

No Brasil, em duas décadas o consumo abusivo de crack se alargou, atingindo distintas e distantes geografias. Atravessou fronteiras entre estados, aderiu ao cotidiano de grandes centros urbanos, cidades de médio porte e áreas rurais.

Quer se tratem de megalópoles ou acanhados municípios parece estarmos defronte a um fenômeno essencialmente alheio e desatrelado à “ordem social”. O que se confirmaria tanto pelos problemas e desafios que de fato propõe à convivência coletiva (em grande medida opondo-se a ela) quanto pela natureza dos caminhos e meios de obtenção dos quinhões de satisfação e prazer; bem à margem dos socialmente compartilhados e culturalmente legitimados.

Entretanto, e de forma irônica, as motivações que convidam ao consumo de crack e – como conseqüência dele – à sua sistematização, em muito se harmonizam com o discurso social dominante (próprio da modernidade e pós-modernidade) cujas tramas se tecem a partir dos imperativos do sucesso, da pretensa auto-suficiência (narcísica!), dos grandes acúmulos de capital e do prazer desmedido; altamente valorosos porquanto incessantes. O sofrimento e as dores do mundo, cada vez mais impopulares e desalojados deste discurso, carecem de sentido e pertinência (entendida aqui como aquilo que permite que o sofrer exista enquanto tal e possa ser suportado e superado) e são alçados à categoria de “mal” a ser expurgado (“sentir dor é pra idiota”); expurgação realizada de qualquer forma e a qualquer custo. Prato cheio (certamente não o único) para a proliferação de práticas euforizantes e anestesiantes!